quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MINHA MÃE

Quem foi que o berço me embalou da infância

Entre as doçuras que do empíreo vêm?

E nos beijos de célica fragrância

Velou meu puro sono? Minha mãe!

Se devo ter no peito uma lembrança

É dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas

Cheia de um terno amor — anjo do bem

Minha fronte infantil — encheu de rosas

De mimosos sorrisos? — Minha mãe!

Se dentro do meu peito macilento

O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora

E as rezas me ensinou que da alma vêm?

E a imagem me mostrou que o mundo adora,

E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!

Não devemos nós crer num puro riso

Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente

Que ela reza por mim no céu também;

Nas santas rezas do meu peito ardente

Repetirei um nome: — minha mãe!

Se devem louros ter meus cantos d’alma

Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

LIVROS E FLORES

Teus olhos são meus livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia

A página do amor?

Flores me são teus lábios.

Onde há mais bela flor,

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?

O VERME


Existe uma flor que encerra

Celeste orvalho e perfume.

Plantou-a em fecunda terra

Mão benéfica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,

Gerado em lodo mortal,

Busca esta flor virginal

E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,

Suga-lhe a vida e o alento;

A flor o cálix inclina;

As folhas, leva-as o vento.

Depois, nem resta o perfume

Nos ares da solidão...

Esta flor é o coração,

Aquele verme o ciúme.